O narrador Adão.
O parto ocorreu de forma normal. Tava lá, a mãe de pernas para o ar e o ginecologista dando tapinhas nas nadeguinhas da criancinha. Nasceu Adão. Nu. Pelado. Obviamente como todo mundo veio ao mundo. E por ser amante do mundo viveu assim. Nu. Pelado.
Naquela época o naturalismo era coisa de gente futurista, uma vergonha, chegava até ser temido na alta, baixa e anã sociedade. Mas Adão não era naturalista, isto o deixava puto. Resolveu viver com uma folha para tampar suas partes. Mas essa idéia só veio depois da puberdade, aliás uma época complicada: Adão vivia trocando a folha de tamanho.
Sua vida estava bem até a hora de virar homem e procurar um emprego. Tentou ser vendedor de perfumes, mas era alérgico, teve até que tomar Fenergan na veia um dia. Coisa terrível. Tudo inchou, não havia folha que agüentasse o tamanho daquele inchaço. Mas esse era o menor dos problemas. Seu chefe o despediu em dois dias de trabalho, só Havia sido contratado porque a gerente, uma cinquentona divorciada e sem filhos adorava vê-lo trocando de folhas.
Tentou virar engenheiro, mas o expulsaram de todas as faculdade. Foi expulso das presbiterianas, das pontifícias católicas, das pentecostais, das públicas, das repúblicas.
Foi acusado de atentado ao pudor diversas vezes, principalmente quando chegava numa entrevista de emprego. Nas dinâmicas de grupo era motivo de risadas.
Não tinha dinheiro para comprar um carro.
Conheceu Lúcio quando tinha 21 anos, naquela época, sua voz já havia passado das turbulências normais da puberdade. Tinha um gogó arrasador, o que lhe rendeu 2 meses de trabalho como Telemarketing, mas foi expulso do trabalho quando o presidente da empresa foi visitar o seu departamento.
O Pai de Lúcio era dono de uma famosa rádio na metrópole e como vivia neste mundo artístico e já vira muita gente pelada na época em que fazia curso de teatro na escola de Zé Celso, não deu nem atenção à folha, e vendo aquele maravilhoso timbre chamou-o para um teste como radialista.
Sucesso absoluto.
A mulherada não acreditava nas loucuras que aquela folha poderia fazer na frente de um microfone. Rendeu rios de dinheiro em merchandising para a rádio. Demonstrou potencial dentro e fora dos estúdios doando milhares de folhas para os descamisados.
“Quem não tem camisa, use folha!!” Dizia para todos.
Conquistou público, foi conquistado várias vezes pelos mais infindáveis tipos de mulher.
Até que rolou aquele lance todo de transplante de costela e se apaixonou profundamente pela sua transplantada.
Hoje tem 50 anos, sócio do pai de Lúcio e padrinho de seu filho.
- E a folha? – pergunta um menino.
- Ta lá com ele.
- Que bela história tio Adão.
- Pois é.
“E terminamos agora mais um programa meus queridos. Amanhã teremos mais narrações aqui na sua rádio couve-flor.”
Escrito por Filipe Beneli Lazarini às 11h18
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